terça-feira, 13 de junho de 2017

O Resumo da História do Othello e Reversi no Brasil




Estávamos nos anos de 1980 quando a empresa brasileira com maior renome no âmbito nacional, Grow, lança o abstrato e dinâmico jogo “Einstein” que nada mais era do que o nosso já famigerado Reversi e, dava início a uma aventura que está a ser contada ainda nos dias de hoje, a história do Reversi e Othello no Brasil.


Nostálgicos e coloridos anos ’80 que traziam consigo além dos Menudos, Pogobol, Genius e Lango Lango, um contingente de jogos eletrônicos (e não só me refiro aos mini-games e Tetris) com os videogames, Atari,Nintendo, Sega e seus genéricos, a princípio houve uma queda no apreço da população em geral pelos jogos de tabuleiros, nessa época já há muito tempo jogos como Monopoly (Banco Imobiliário como era conhecido aqui no Brasil) e War eram bem conhecidos em terras tupiniquins, sem contar também que apesar de não fazer a menor ideia de como se jogava, o “Jogo da Onça” jogo esse praticado desde tribos indígenas como a Manchineri no Acre à Guarani em São Paulo, ficou bem conhecido nos círculos culturais daqueles que tinham um certo apreço pela cultura indígena brasileira. Mas voltando ao que os anos de 1980 pediam, como competir com a praticidade e modernidade e “descolagem” dos jogos eletrônicos? O problema dessa questão não era nacional, era um problema em escala mundial, mas que no caso do Brasil, para piorar jazia ainda uma quase inerte e mofada concepção em torno do que seriam os jogos de tabuleiros, era hora de inovar, arriscar para primeiramente arrancar ideias antigas como as cinquentistas, sessentistas e setentistas e modernizar, dinâmicas e panorâmicas diferentes seriam mais que uma necessidade. Na década das cores e arranjos modernos, jogar com os amigos agora não seria pura e simplesmente formar um campo de batalha onde os “exércitos” se atacavam em prol de um conquista, ou tentar fazer uma ação de planejamento econômico como pedia o Banco Imobiliário e tão pouco simplesmente montar uma roda de Dominó ou Baralho, jogos com um dinamismo diferente marcariam sua chegada e total ascensão dentro do mercado brasileiro, onde aparentemente o gosto por novos jogos, aos lúdicos e fiéis aos boardgames clamavam, uma vez que boa parte desses jogos “descolados” eram quase todos, se não todos, importados; um novo nicho nascia ali e os visionários sócios da Mooca em São Paulo, sabiam que dentre os jogos mais bem aceitos pelos consumidores europeus, dentre muitos outros é claro, estava o nosso jogo. Mas ai você me pergunta: Desde quando Reversi é um jogo moderno? Logicamente que eu sei que esse jogo já era jogado na época dos dinossauros, lá na Inglaterra vitoriana do Sherlock Holmes e tal, mas o “Reversi” que me refiro é aquele que mesmo se chamando “Reversi”, usa as regras do “Othello” em sua estrutura, e o Othello é sim, um jogo moderno, e mais moderno ainda nos anos de 1980, pois foi reinventado em 1971 por Goro Hasegawa, conto essa história mais adiante... Então voltando aqui comigo na linha de raciocínio... Sabendo ou não, se a chegada dos jogos eletrônicos em computadores pessoais e videogames, de início abalariam um pouco o universo dos jogos presenciais, por outro lado eles de certa forma ajudaram como uma ponte publicitária daquilo que as pessoas também poderiam jogar fora dos videogames e computadores e, aposto com vocês que os empresários não acharam nada ruim, quando esses consoles dispararam a esmo uma miríade de versões diversas de “Othellos” e Reversis, tais como a Atari 2600 em 1980, que, diga-se de passagem, ainda lançaria uma nova versão de Reversi para o seu computador pessoal Atari ST em 1988, a Nintendo com sua versão “Othello” para NES também em 1988 e, claro, a Microsoft com sua própria versão em 1985, no Windows 1.0. Algumas pessoas tiveram o seu primeiro contato com o jogo assim, na forma digital, quem teve qualquer um desses videogames (ou computador) na época, teve a possibilidade de conhecer uma das versões do Reversi, eu mesmo ganhei um Atari 2600 em 1990 no meu aniversário de 10 anos, tinha 32 jogos na memória, mas não tinha o Reversi, infelizmente, o que me levaria a ter conhecido esse jogo muito tempo antes. Tivemos o lançamento do “Reversi Para Internet” com achegada no Windows XP, que viria a ser o passa tempo favorito, junto ao “Paciência”, daqueles que tinham um computador com esse sistema operacional  em casa (eu por exemplo) que também ajudou a espalhar ainda mais a ideia do conceito do que era o jogo, coisa da qual que inegavelmente influenciou de alguma forma na aceitação dos tabuleiros do jogo que seriam vendidos pela Grow, honestamente não posso dar um veredicto final nessa minha afirmação, não achei dados e informações na Internet que conciliassem jogos virtuais + jogos de tabuleiros, quanto a influência de um no resultado comercial do outro, mas, não seria difícil de acreditar que ambos se influenciam de certa forma, eu mesmo descobri o jogo em um mero aplicativo instalado de fábrica num celular LG antigo, de 2004, que me fez despertar para o mundo real daquele jogo, e gastasse dinheiro com tabuleiros do gênero. E é justamente por isso, que se quero falar da história do Othello e Reversi no Brasil, é imprescindível falar também, da ação digital deixada como marca definidora nos anos de 1980. O Einstein da Grow era a forma real compilada em uma placa de plástico do jogo de videogame que todos viam passar no comercial de TV e, com a vantagem de ser jogador sem a necessidade de um videogame, televisor, computador ou de energia elétrica de fato. Falar sobre a revolução que os games digitais causaram nessa época e, falar de uma “guerra armamentista” das empresas de videogames nessa época, é falar de um empreendimento que nos rendeu grandes frutos, mas deveras, é uma história muito longa e técnica que eu não pretendo e nem tenho gabarito para discorrer aqui, voltemos com a saga do mundo real então.

Então, voltando ao mundo real dos tabuleiros, não passa muito tempo, e a empresa tenta mais uma vez inovar, convergindo ao título original do jogo inventado pelos londrinos Wallet e Mollett, o vitoriano “Reversi”, e é exatamente isso que vocês leram ai, o nome do jogo passava de “Einstein” para “Reversi”, (não confundir com o outro Reversi da Grow, que era totalmente diferente mas que também se chamava Reversi, e foi lançado em 1981) era o mesmo jogo, a estrutura do jogo original tupiniquim continuava a mesma, mas um pouco mais puxado ao modelo americano comercializado pela  empresa Whitman e, decidiram que as cores do tabuleiro seria na cor preta e peças bicolores que se revezavam em azul e branco. Obviamente que a empresa não dependia somente de Reversi para sobreviver, jogos como Risk, Diplomacia e Can-Can eram um sucesso absoluto na época, sem contar os inúmeros quebra-cabeças que a empresa lançou em seu limiar. Alguns dos jogos depois de alguns anos após o lançamento perdiam um pouco o brilho, e o comércio esmorecia, dando margem a novos lançamentos que dessem uma engrenada nos lucros, e os jogos do qual não se auto-sustentavam após os empurrões  publicitário cessavam, acabavam engavetados e, talvez esse foi um dos motivos pelo qual até o término dos anos 80’ e 90’ ninguém ouviu falar em algum novo update growano do nosso queridíssimo Reversi, e então... Os anos passaram, e o comércio do jogo estava há tempos congelado, apenas colhendo frutos nostálgicos de uma época em que, as já adultas molecadas dos anos 80’ eram apenas moleques e jovens jogando uns joguinhos legais com os amigos e que ninguém mais se lembra exatamente o nome, mas talvez surfando nessa ideia, nessa reminiscência com fragrância de tutti-frutti ou de brinquedo novo, que mais uma vez a Grow resolveu que poderia ressuscitar esse jogo, o nosso Reversi. Sabemos que empresário é empresário, mesmo que haja paixão no empreendedorismo, não é tão somente o lance das “humanas” que predominam em um bom empreendedor ou em bons empreendedores, as exatas falam alto também e, todos sabiam o que estava escrito nas caixas de um joguinho comercializado na Europa e Estados Unidos, anúncios como “30 Milhões de cópias vendidas” é um bom chamariz não só comercial lúdico aos apreciadores de um bom jogo de tabuleiro, mas poderia ser uma mina de ouro a um bom empresário. Por isso, pensando dessa forma e sabendo que a marca Reversi não detinha todo esse poderio comercial que vinha estampada nas caixas de jogos estrangeiros, que a Grow se rende ao Othello. E os sócios engenheiros fundadores da Grow mais uma vez relançam o jogo no país, em 2004, com o nome (copyright) “Othello©”, que é o copyright mais bem-sucedido do jogo de todos os tempos, marca essa criada pelo japonês Goro Hasegawa, que viria a ser o dono e fundador da empresa Tsukuda Original, que após traçar uma parceria com o americano James Becker, dono da Anja.co, criariam um império, detentor de mais de 30 Milhões de tabuleiros de Othello vendidos em todo o mundo! Hasegawa tinha o jogo, Becker o marketing e o capital. Hasegawa ressignificou o jogo, modificando algumas regras limitadoras do jogo dos londrinos, e implantando uma nova dinâmica, escolhendo um título shakespereano (Othello: O Mouro de Veneza) para intitular sua readaptação, o nome proveniente da literatura britânica que talvez seja uma herança deixada pelo seu pai, que era um estudioso da cultura inglesa, enquanto Becker pensava em frases como: “Um minuto para aprender... Toda uma vida para ser mestre” e a coisa foi muito bem, bem até demais. E de volta ao país sul-americano, temos a Grow, que abre mão do antigo tabuleiro a-lá “Einstein” que perto ao modelo padrão dos tabuleiros mais bem-sucedidos da Europa e Estados Unidos, deixava um pouco a desejar no aspecto designe e jogabilidade e relançou o Othello no Brasil, fiel ao Othello vendido na Europa e Estados Unidos como dito acima, exatamente fiel ao modelo comercializado pela Mattel. Nessa época a Grow criou o “Circuito Brasileiro de Othello” que foi dividido em 16 etapas e que consagrou Daniel Dantas como campeão, o premiando com uma passagem para o WOC de Londres na Inglaterra, que foi um total sucesso. Só para recapitular, “Einstein, Reversi e Othello” destes apresentados pela Grow (O Reversi londrino era diferente) são exatamente o mesmo jogo, mas com esquemas de direitos autorais diferentes, o que demanda preços diferentes nas vendas e pagamentos de Royalties que seja, logicamente que marcas como “Einstein” que era uma marca própria e, “Reversi” que é uma marca de nome genérico que ninguém mais sabe quem é o dono, não detém o mesmo peso comercial que “Othello©”, e talvez por isso, que em 2006, justamente quando um importante personagem entraria em cena, Lucas Cherem que viria a ser o fundador da Federação Brasileira de Othello, a Grow anuncia o fim da comercialização do jogo no país, talvez por terem dado um passo maior do que a perna ou simplesmente por apenas desistirem de “chover no molhado” insistindo em um jogo que desde os anos 80’ nunca havia dado um lucro significativo a empresa e, com isso, finalizado o comércio desse jogo e, jogando um balde de água fria na cabeça de todos.

Um ano antes, em 2005 Lucas Cherem participava por conta própria do mundial de Reykjavick na Islândia onde teve até mesmo a possibilidade de participar de um congresso com os organizadores estrangeiros e, foi ali que ele próprio decidiu criar a FBO no ano seguinte. Tudo foi bem organizado e, com a ajuda de Roberto Iglesias, procuraram a Grow para saber como proceder no uso da marca como tema principal da federação e, foi justamente lá que viram o último vagão passar, de um trem enorme que vinha de muito longe, foi frustrante mas não impediu que a história continuasse. No mesmo ano, outra história obscura envolvendo os bastidores da Federação Mundial de Othello, a WOF, que seria referente a uma tal ajuda de custo que a própria estava oferecendo a jogadores que quisessem participar de mundiais, deixariam os idealizadores da criação da FBO cismados, história essa como encimada, que propunha que seriam eleitos “países” que teriam ajuda de cerca de 1.000.000 Reais por jogador, algo que ninguém entendeu direito e que ainda deixava de fora federações criadas naquele mesmo ano, (O Brasil por exemplo), mas de qualquer forma, a nova norma limitava o envio de jogadores patrocinados por país, às vezes três ou dois, ou até mesmo nenhum jogador seria patrocinado, na verdade foi uma norma ruim que deixou todos com uma pulga atrás da orelha, pois daria margem a falcatruas, além de arbitrariedades; uma vez que ninguém nunca soube quem decidiria os países patrocinados e quantos e por que das quantidades de jogadores escolhidos por país. Já entenderam, não é? Com essa espécie de “Bolsa Othello”, a criação da Federação Brasileira de Othello foi adiada, primeiro para não deixar a falsa impressão que a mesma foi criada por interesses escusos, e segundo como uma forma de protesto contra essas normas. Mas, mesmo depois dessas porradas burocráticas, finalmente a Federação Brasileira de Othello, em 2007 foi criada, Tully Lin criou o logo e, Guilherme estruturou um site, e o primeiro campeonato brasileiro de Othello foi realizado nesse mesmo ano, lá na famosa Ludus Luderia em São Paulo, sagrando um gringo (argentino) Daniel Olivares como o primeiro campeão brasileiro de Othello oficialmente. Nessa mesma época Adegar Alves era quem mais puxava a frente pela Internet, agregando jogadores e ajudando na realização de campeonatos online. Época essa do auge do Orkut, lá para o ano de 2006 o grupo da rede social “Othello/Reversi” detinham mais de 370 jogadores seguindo os descontraídos e informativos fóruns, foi justamente nessa mesma época que através dessa comunidade eu descobri o quão enorme poderia ser o mundo do Othello e Reversi, eu posso dizer que eu fui um dos agregados por essa avalanche causada pela criação da FBO e comunidade do Orkut.

Os anos passam sem grandes inovações ou modificações, tivemos apenas a manutenção da vitória conquistada, os campeonato aconteceram normalmente, porém sempre com números mais reduzidos, de quatro a doze participantes quando tínhamos sorte. No decorrer desses anos, lá para o ano de 2013, tivemos a empresa Ludens Spirit lançando o Reversi de novo, agora com o título “Yin-Yang”, é um simulacro do tabuleiro da Grow, porém menor e mais frágil, e com uma jogabilidade razoável. Tivemos a empresa Mitra lançando em 2012 a sua versão para o jogo na chamada "Enciclopédia de Jogos da Mitra" no formato livro-jogo, (o Reversi é um dos 36 jogos que a Mitra disponibiliza atualmente) e, utilizando o título genérico “Reversi”, com um tabuleiro resistente feito de madeira e com um designe decorativo exótico, eles firmariam uma parceria com a FBO em 2017, história essa que irei contar mais à frente. E tivemos outras pequenas empresas lançando ao seu modo alguma versão do mesmo jogo, por isso restrinjo-me a falar aqui nessa postagem, apenas de alguns, dos mais bem-sucedidos. Como eu estava dizendo, tudo mudou no ano de 2015, quando Moisés Correia Jr. da secretaria de esportes de Nova Odessa, resolveu apoiar a modalidade, realizando competições e divulgando em escolas da região, sempre em contato com os organizadores antigos, conseguiu rapidamente conquistar toda a microrregião de Campinas, e tornar o jogo Othello um dos mais jogados daqueles pedaços de chão e, em pouco tempo ser eleito o novo presidente da FBO, sucedendo Daniel Dantas, que assumira desde 2012 a presidência. Durante todo esse tempo a Grow sempre foi e continuou sendo muito solidária com os eventos ligados à marca Othello no país, durante muito tempo emprestavam seus tabuleiros para as competições disputadas na Ludus Luderia. Mas, eles não voltaram a produzir o jogo, infelizmente.

Em 2015 tivemos inúmeros encontros e divulgações em escolas, era a deixa para o que ainda estava por vir, e no ano de 2016, tivemos o primeiro campeonato paulista de Othello, disputado em Campinas tendo o próprio presidente Moisés Correia, derrotando o antigo presidente Lucas Cherem na final, e nesse mesmo ano tivemos o maior campeonato brasileiro de Othello da história do Brasil e, um dos maiores campeonatos de Othello já realizado no mundo! Com 81 participantes. Surreal, e fascinante... Esse, eu tive a felicidade de ter participado e ter ganhado. Estamos aqui em 2017, a FBO firma parceria com a Mitra, teremos tabuleiros da empresa em nossos eventos em breve, talvez no segundo semestre em Itatiba já notaremos essa união. Teremos o Panamericano de Othello em julho, e as chances são altas de mandarmos representantes a rodo para o mundial de Gent na Bélgica em outubro desse ano. Alguém ai ainda duvida do potencial de conquista desse jogo? As histórias empresariais da Grow se emendam com as aventura lúdicas de pessoas que tinham esse jogo como um hobby,e ambos foram fundamentais nessa odisséia. E agora com a força governamental de incentivo ao esporte estamos mais fortalecidos. Para um jogo que apenas começou como um jogo estranhamente chamado “Einstein”, até o patamar em que chegamos hoje, até que os tupiniquins dessa terra querida não devem nada a ninguém, levamos esse jogo muito mais alto que países da Europa que tinham saído na frente nessa corrida, com mais dinheiro, mais tempo, conhecimento e recursos, e nós os ultrapassamos. Para onde irá essa história? Convidar-te-ia comigo, se eu tivesse alguma ideia, mas só consigo imaginar.


Algumas Fontes e Complementos:



Os Primeiros Jogos de Tabuleiro da História


http://lounge.obviousmag.org/anna_anjos/2013/01/a-origem-dos-jogos-de-tabuleiro.html


Especial FBO (Federação Brasileira de Othello)

http://othelloclassic.blogspot.com.br/2010/06/especial-fbo-federacao-brasileira-de.html

Reversi Online, Suas Origens, Atualidade, Futuro e suas Diferenças com o Othello

http://othelloclassic.blogspot.com.br/2012/01/reversi-on-line-suas-origens-atualidade.html

A história do video game

https://herosgame.wordpress.com/2009/09/21/a-historia-do-video-game/

Nes - Othello (1988) Youtube

https://www.youtube.com/watch?v=eG2MZfAmhYI

Atari ST Othello (1988) Youtube

https://www.youtube.com/watch?v=EnTK0PnuhfE

Reversi Windows 1.0 Gameplay (Microsoft  1985) Youtube

https://www.youtube.com/watch?v=pOExkEPDtKk

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