domingo, 24 de setembro de 2017

Fan Mian, A Equivocada História do Reversi Chinês




Olá a todos, tudo bem com vocês reversianos?

Vamos falar de um assunto que provavelmente dará pano pra manga? Afinal, que história é essa de Reversi chinês e, qual a origem dessa lenda sem pé nem cabeça que alguns sites propagam por ai? Se segurem nas cadeiras e vamos lá!

Pois bem meus amigos e amigas, já venho notado há um tempo, incansáveis sites propagando em suas repartições publicitárias ou explanativas, textos que fazem uma alusão a uma possível origem chinesa ao jogo Reversi, que peremptoriamente propagam as mesmas explicações infundadas de que: “Reversi é um jogo cuja história ninguém sabe ao certo, e que alguns acreditam que foi criado em Londres por John  W. Mollett ou por Lewis Waterman no século 19, e outros creem que foi criado na China com o nome "Fan Mian”, tais sites disseminam as duas hipóteses com pé de igualdade como se de fatos fossem antagônicas e igualmente aceitas pela comunidade Internacional de jogadores e estudiosos da história do jogo, o que me fez elaborar a seguinte questão: Será mesmo que o estranho jogo Fan Mian foi realmente o predecessor do jogo Reversi na antiga Londres, ou terá sido isso uma invenção que através de boatos se propagou como um contágio e se alastrou por inúmeros sites ao redor do mundo?

Venha comigo e, vamos ver o que descobrimos sobre essa história, (ou seria “estória”?) em torno do lendário Reversi Chinês...

Fan Mian

Estava eu a navegar pela web tentando conhecer o vovô chinês do Reversi, diziam Fan Mian ser o nome desse belo e notório ancião de importantes dinastias chinesas e, ansioso eu estava para poder vê-lo, tamanha foi a minha surpresa ao descobrir que o velho chinês não era lá muito fã de fotografias, ao ponto de nenhum artefato fotográfico ou pincelada artística terem engarrafado um vívido e límpido retrato deste senhor reversiano... Fiquei encabulado, eu confesso, mas não sou de desistir assim tão fácil e, prossegui afinco na busca, quase arqueológica, dentre todos os fragmentos empoeirados das vastas dinastias no encalço do famigerado “Fan Mian” o tal jogo que alguém, de talvez suma importância, atribuiu valor inegável, na base do que viria a ser, o Reversi londrino. Céus e céus, não encontrei nada além de ctrl+c e ctrl+v... Apenas cópia e cola, tanto em inglês quanto em português, de uma tal ascendência reversiana provinda de um tal jogo chinês chamado “Fan Mian”... Mas, o dito cujo, não vi e não consegui traçar nenhuma linha direta entre quaisquer jogo chinês com o Reversi, a não ser aquela pífia explicação da associação japonesa de Othello onde correlacionam a base do Othello de Goro Hasegawa ao GO, coisa da qual todos já estão carecas de saber, se tratar possivelmente de um desvio documental.  Em minhas pesquisas, e com a ajuda de um amigo que logo, logo citarei aí abaixo, notei que a ideia de um jogo chinês, com características similares ao jogo londrino e, consequentemente ao nosso Othello, germinou de um livro lançado em 1954, por E.O. Harbin (pseudônimo?) chamado: “Games of Many Nations” onde, dentre provavelmente muitas menções, ele citou um jogo chinês que devia lembrar o Reversi londrino em seu aspecto estrutural e estratégico, e só. Infelizmente esse livro é de difícil acesso para nós brasileiros, eu pessoalmente gostaria muito de saber de onde Harbin tirou estes enunciados, gostaria de saber e estudar suas premissas, mas o que tenho e o que me chega em pesquisas tanto em inglês, português e chinês são fragmentos de tudo que conseguiram enxugar de sua obra lúdica e, que frustantemente não explana absolutamente nada sobre suas conclusões deveras excêntricas sobre a origem do jogo Reversi, prerrogativas quase que “religiosas” por parte de propagadores irracionais da ideia do Reversi chinês.

Acredito que Harbin por si só não teve um papel tão decisivo na disseminação da ideia, e sim alguns de seus leitores que detinham algum conhecimento sobre o jogo londrino ou da recém invenção patenteada de Hasegawa, o Othello; e que em um frenesi de deslumbramento contagiante, propagaram que o jogo Reversi se equivalia aos jogos mais tradicionais já conhecido, como GO, Xadrez ou Mancala, e que o colocando como um sobrevivente milenar chinês, ganharia suma importância frente aos concorrentes do mundo contemporâneo, seria muitíssimo legal, se não fosse uma possível mentira. Não há correlação alguma de jogo chinês com Reversi inglês e, cansado de procurar e não achar absolutamente nada, pedi a ajuda de um amigo que também tem um certo tato para pesquisas, Alfredo Jara, editor do blog “Othello No Brasil” e tradutor do livro: “A minute to learn... A lifetime to master” de Brian Rose, e fiquei surpreso quando o mesmo descobriu por exemplo que o nome “Fan Mian” é o nome de uma cidade ao sul da China, seria possível que Harbin (se é que ele foi para lá ‘algum dia e ainda por cima’ durante as décadas de 1940 e 1950 em plena Revolução Chinesa, conjecturou) viu um jogo similar ao Reversi nessa região e a priori concluiu que devesse ser “vô” do mesmo? O mais estranho foi a descoberta de que “Fan Mian” em tradução livre para o português significa: “Do outro lado” ou algo similar a isso, que remete a ideia de “dois lados”, binarismo, antagonismo ou algo de sentidos contrário, ideia que lembra a dinâmica do jogo Reversi realmente. Estranhamente eu já havia descoberto, ao pesquisar sobre quem de fato foi E.O. Harbin, que “Harbin” na verdade, é também o nome de uma cidade ao norte da China, onde é comemorado um festival na cidade de gelo, que é como a cidade fica de dezembro a fevereiro durante esse festival, (nem mencionei o fato de uma cidade ficar ao norte e outra ao sul, “binarismo”?). Sobre o tal Harbin, o amigo Alfredo Jara descobriu e me enviou um link, onde detalhava algumas informações sobre o mesmo, e dentre essas informações, pude ver que ele escreveu outros livros, tais como: “Nova Enciclopédia da Diversão (1985), Diversão e jogos antiquados (1978) FUNOLOGIA: 1.000 Jogos e planos de entretenimento (1951) dentre outros” e descobri que ele fazia parte do conselho de educação da Igreja Metodista, e nada mais além de uns ensaios de filosofia é possível obter desse anônimo e estranho escritor. A verdade é: Enquanto há uma miríade de evidências, pormenorizadas traçando possíveis elos entre o Reversi londrino e o Othello atual, com documentos, livros e jornais, já com seja lá o que Harbin aborda em seu livro, não há uma só prova esticada para páginas de Internet que pudessem ser analisadas por especialistas em jogos de tabuleiros, não há nem sequer uma imagem digna do que seria esse tal jogo chinês chamado “Fan Mian”, não há outros autores falando do jogo e, por fim, não há nenhum órgão oficial do jogo Othello que mencione “Fan Mian” como sendo precursor do Othello atual. Não estou aqui dizendo que tudo que órgãos oficiais dizem deva ser crível tão somente pela égide da “autoridade”, pois há muitos veículos por ai, oficiais, que falam absurdos tamanhos em quase todos os assuntos da sociedade humana, mas quando todos os órgãos oficiais, com bases concretas, dizem a mesma coisa, é um bom sinal de que aquele possivelmente seja o caminho correto, apenas nos cabendo averiguar se de fato é.

Rota da Seda

Sabemos de toda a importância dessa antiga rota no comércio e formação de grandes civilizações no passado, tal como a egípcia, mesopotâmia, indiana e obviamente a própria chinesa, que se fazia valer guardando o segredo a sete chaves da receita de fabricação da seda, produto esse que nomeou a rota. Como também foi de suma importância no transporte e distribuição de animais domésticos, porcelanas, artefatos culturais, invenções das mais variadas , alimentos exóticos e etc. E até mesmo de traços culturais, linguísticos e religiosos  que migraram de povos para povos durante anos de existência da rota. Essa rota não só importou seda, como também não somente se limitou à terra firme, as suas rotas marítimas com o domínio das técnicas de navegação, tiveram real importância ao longo do tempo na influência cultural de todas as regiões e culturas daquela época.

Então, teria algum jogo com dinâmica reversiana atravessado essa rota da China à Antioquia, posteriormente Pérsia e depois Europa? Ou costa marítima indiana, árabe, Mar Mediterrâneo e Europa? Quem sabe? Porém não irei discorrer sobre esse assunto por ser bastante complicado e exigir maior especialidade na área, o que posso dizer é que não achei nada que me levasse a crer na teoria de Harbin. Outro fato é de que, se o único critério que Harbin usou para concluir que um jogo era parente de outro foi somente sua similaridade, isso acaba numa loucura interpretativa da qual cada um, a seu bel-prazer, poderia rotular como primos, qualquer jogo com regras e estilos parecidos, mesmo que distantes geograficamente e no tempo, como por exemplo o jogo “Latrúnculo” que em um lance rápido de olhar, qualquer ser humano que conheça o jogo Reversi, diria se tratar do mesmo jogo... E não poderia ser diferente, tabuleiro 8X8 e peças pretas com brancas ou vermelhas, o problema é que esse é um jogo com regras diferentes e tão antigo que era jogado no Império Romano e até mesmo antes disso, na Grécia antiga. O tabuleiro que Mollett criou e, que posteriormente Waterman sofisticou, era em formato de cruz, pois bem, que tal dizer que Mollett se baseou num jogo chamado “Patolli”? Nada mal, já que este também era um jogo em formato de cruz, o problema estaria no fato de que este era um jogo com regras e dinâmicas muito diferentes do Reversi de Mollett e, que fatidicamente era jogado por povos da Mesoamérica, de nobres Astecas à Maias, este era um jogo muito popular naquela época, desde 200 AC à 1521 DC. Ainda na região asiática, teríamos o “Ming Mang”, originário do Tibete, que detém um tabuleiro parecido com o jogado em Reversi, (também na antiguidade foi jogado em tabuleiros de GO 17x17 e/ou 19x19, dependendo da época) e modos de capturas de peças que ligeiramente lembram um pouco o jogo Reversi, tanto quanto o próprio GO o lembra, jogos de regras parecidas, mas sem vínculo direto. Como veem, não da para somente correlacionar jogos pela suas similaridades anatômicas e até mesmo estratégicas. Acredito que determinar criações (e também seres vivos) como próximas tão somente pelo critério anatômico, é tão errôneo que levar-nos-ia a conclusões risíveis, como dizer por exemplo que a Pirâmide de Tenochtitlán da civilização asteca, que foi construída em 1375, teve como base e influência as pirâmides egípcias de 4.000 mil anos atrás, como a pirâmide de Gizé por exemplo - a não ser que você acredite no que o cômico livro “Eram os Deuses Astronautas?” de Erich von Däniken diz a respeito disso, com alienígenas ditando as regras e toda a fantasiosa ideia. A lógica (construir amplo embaixo e mais cônico acima, para sustentar o peso) e a laboriosidade tanto quanto a engenhosidade humana explicam melhor essa questão do que suposições fantasiosas, ainda citando outro exemplo agora dentro da zoologia, seria o mesmo que dizer que morcegos são pássaros somente porque têm asas e quase sempre têm o mesmo tamanho, não é assim que taxonomia de animais funciona, correto? A não ser que você esteja amplamente desatualizado nessa questão. Voltando ao assunto principal, temos jogos nascidos do Reversi vivos hoje em dia, poderia falar alguns, mas vou me abster somente em dois, o primeiro é o “Biversi” de Bill Taylor, jogo esse jogado em um tabuleiro de 9X9, onde dois grupos de peças pretas e brancas (um na esquerda superior e outro na direita inferior) dispõem-se nas intersecções dos cruzamentos das linhas em verticais e horizontais (assim como no GO), jogo de regras similares ao Reversi e de conexão direta com o jogo Reversi. Já o outro jogo é o “Revertello” de Fred Horn (jogo de 2004) é jogado em um tabuleiro hexagonal, com três peças brancas e pretas dispostas já no início da partida, no centro do tabuleiro. Os dois jogos citados, quanto outros dos quais não mencionei, tem parentesco direto com o jogo Reversi, o fator histórico e documental sempre vem em primeiro lugar em qualquer julgamento dessa natureza, mas sendo o mais preciso possível, qual é exatamente o elo decisivo que une o Reversi londrino ao Othello atual? Quer minha opinião sincera sobre essa correlação? Então lá vai, a base de criação do Othello atual, teve estímulo no Reversi londrino, porém eu estaria mentido se dissesse que isso é uma verdade inquebrável, pois devido ao grande hiato secular entre as duas criações, fica difícil traçar um paralelo irrefutável e intrínseco entre os dois jogos, sem contar a resistência cultural japonesa em dar alusão a tudo que venha de fora do Japão, falo isso pois até mesmo a Associação Japonesa de Othello nem sequer menciona em seu site oficial a história bem documentada do Reversi londrino, eles preferem encaixar a iluminação da criação do Othello, ao jogo GO. E então você me pergunta: Mas o GO é um jogo chinês, correto? Sim, mas foi levado ao Japão muito séculos antes e meio que se incorporou à cultura local e ficou indissociável dos campos japoneses, tanto quanto o jogo Dominó (que também é de origem chinesa) se incorporou à cultura brasileira dos tiozinhos no bar jogando e bebendo, isso era mais popular antigamente aqui no Brasil, confesso, mas ainda é tangível como sendo algo peculiar à nossa cultura, e até mesmo a cultura latino americana em geral. Talvez por isso, foi mais fácil à associação japonesa de Othello intricar “Othello + GO” era como estar falando de jogos inventados no mesmo país, o Japão, e olha que ainda faltavam muitos anos para que Yumi Hotta criasse um dos mais premiados Animes da história, o “Hikaru no GO” que foi uma sensação no Japão, elevando a popularidade do GO a um patamar quase sem precedentes na história! Voltando ao assunto do hiper tradicionalismo japonês, ouvi um especialista em história japonesa dizer que um dos fatores do islamismo que varre a Europa, chamando e conseguindo cada vez mais adeptos em todos os países europeus, não fazia nem sequer um mero arranhão dentre os japoneses, devido ao fato de a cultura japonesa ser extremamente tradicionalista e resistente meio que naturalmente a tudo que é de fora do Japão, sejam religiões, estilos, opiniões e modos de vida, para o japonês médio, só existe japonês e não japonês, existe até mesmo uma palavra para isso “Gaijin” que não significa apenas estrangeiro, mas também “Não-Japonês”, no clássico livro de ficção científica do escritor William Gibson, essa palavra e descrita como sendo de teor pejorativo.  Vi certa vez em um vídeo de uma coreana que fala português (“Coreaníssima” é o nome do seu canal) onde a mesma explicava que o Japão jamais assumiu oficialmente os crimes de guerra que cometeram durante as invasões aos territórios coreanos como tortura e estupros. Acredito que esse seja um traço cultural japonês, obviamente sem generalizar, mas os japoneses em geral têm uma certa dificuldade em assumir qualquer coisa que coloque o Japão em segundo plano, até mesmo filhos de coreanos nascidos no Japão, que falam e se comportam como japonês, são tidos como “não-japonês” pelos japoneses, a coisa fica mais flexível em questões mais light como cultura pop, motivo do qual febres musicais orientais atuais, como são as chamadas “k-pop” (de origem coreana), fazem um estrondoso sucesso dentre os jovens japoneses, talvez por se semelharem às “J-pop” que são de origem japonesa, o fato é, volto a dizer, que em geral a cultura japonesa como um todo é tradicionalista e resistente e, isso é quase imutável, talvez por isso a associação japonesa de Othello nunca tenha assumido influência londrina na criação de seu jogo, e tão pouco assumiria em relação ao fantasioso “Fan Mian”, se essa resistência não existisse, saberíamos de fato, de onde Hasegawa retirou a ideia para sua criação, mas, mesmo sem essa confirmação em 100%, (e sim 97%, os 3% restantes seriam caso Hasegawa tivesse tido a mesma ideia dos londrinos já que é um jogo de dinâmica e regras simples) não significa que investigações da história do jogo, não tenham apontado como “quase” certo de que o Reversi londrino foi o precursor do Othello atual O JOGO É EXATAMENTE O MESMO, apenas mudando detalhes de regras, como a que diz que (ao contrário do Othello), as quatro peças iniciais não eram fixadas de início e sim colocadas avulso pelos jogadores e, regras sobre o “passe”, do qual determinava o final da partida até mesmo o nome do jogo é de uma peça teatral do inglês William Shaskepeare “Othello, o Mouro de Veneza” e o próprio pai de Goro Hasegawa era um estudioso da cultura inglesa e; de forma alguma podemos imputar teorias menos críveis no lugar de “teorias” mais bem documentadas, que é o caso acima. Não há motivos para colocarmos uma história 10% crível sobreposta a uma de 97% de indicativos. No decorrer da história humana, sempre houve mitos e todo tipo de histórias incríveis, algumas caem no vale da fantasia, outras no possível e, outras viram até mesmo religiões e seitas, o conhecimento e estudos dessas histórias, bem como a análise minuciosa, discriminam cada uma a seu devido lugar no cronograma como foi no caso do santo sudário, que descobriram ser falso depois dos testes de carbono-14. De forma mítica, tentaram imputar uma identidade messiânica à Tiradentes, o pincelando como um homem de cabelos e barbas longas, como na imagem mais tradicional de Jesus Cristo, na tentativa de endeusar um símbolo tão corajoso e nacional quanto aquele (tínhamos que criar uma imagem brasileira frente à portuguesa, uma identidade própria) coisa da qual é amplamente contestada, uma vez que a opinião de especialistas diz exatamente o contrário, que ele morreu careca e sem barbas, devido a procedimentos pré-executório. Ou seja, sempre “forçam a barra” um pouquinho para vender o peixe... E nos jogos orientais, há lendas? Sim, primeiramente tenho que contar sobre o Manual de GO chamado: “Sun Ce e Lu Fan jogando GO”, manual esse descrito como o mais antigo manual desse jogo de todos os tempos, praticamente esse manual mostra esses dois lendários personagens jogando GO. Sun, era o irmão mais velho de Sun Quan, um antigo rei do reino de Wu, e Lu era seu conselheiro chefe, resumidamente Lu ajudou Sun a reverter a falta de dinheiro, tropas e grãos do qual padecia, na história diz que o mesmo seguindo o conselho de Lu, entregou seu selo imperial para Yuan Shu em troca de 3000 tropas, conseguindo resolver o embaraço e obtendo êxito militar, e diz a lenda que Sun e Lu jogaram GO para afiar táticas militares de dominação, assim planejando maiores empreitadas. Bom, por mais que todos esses personagens tenham sido verdadeiros e importantes na história chinesa, (assim como Tiradentes também foi ao Brasil), essa parte da história envolvendo o jogo GO, não. Arqueólogos descobriram em escavações um tabuleiro de GO que mostrava um tabuleiro diferente do mostrado no manual, pois naquela época, provavelmente durante a Dinastia Han, o GO era jogado ainda em 17x17 casas, enquanto que a descrição do manual mostravam 19x19 casas, invenção posterior à essa dinastia, provavelmente inventaram para dar um quê de importância magistral ao manual, mesmo que de qualquer forma esse manual ainda continua a ser o mais antigo do jogo em todo o mundo. Outra história interessante envolvendo o jogo Go, é a lenda de Lanke, que conta a história de um garoto chamado Wang Zhi, pertencente a Dinastia Jin, que estava cortando madeira numa montanha, e notou que haviam dois imortais jogando GO e, então parou para assisti-los jogar, de certo ficou tão interessado naquele jogo que se esqueceu do tempo, assim que a partida acabou e os imortais se foram, ele se virou para pegar o seu machado para que pudesse prosseguir contando madeira e, ficou intrigado ao ver que o machado estava totalmente enferrujado e sem cabo, assustado voltou para casa e não encontrou nenhum parente seu e, para seu terror, descobrira que o máximo que as pessoas na região sabiam, era que havia uma história que falava de um garoto que um dia saiu para cortar madeira na montanha  e nunca mais voltou. Foi ai que ele percebera que ao assistir os imortais jogando GO, ele próprio tinha ficado preso num tempo próprio, como os imortais. Todas essas histórias nos servem como base e alicerce para construir um raciocínio, e chegar a uma verdade inegável, a de que o ser humano tem uma certa tendência ao deslumbramento mágico, faz parte da nossa mente o poder da criação, dos lampejos de criatividade que circundam toda a nossa psique, que se bem aplicada resultam em todos os tipos de artes humanas, pinturas, arquiteturas, música, cinema, dança, literatura, poesia e, etc. Porém, má usada e, quando há uma possibilidade de enfeitar uma ideia para que ela pareça ser mais atraente e durável frente as outras, a criatividade a dispor da mentira, vira a receita do mal, mas desde que sirva a um propósito maior, a mentira em si vira um mero e insignificante detalhe. Talvez a palavra “mentira” em si ganhou um peso diferente em nossa época, o “Zeitgeist” é sutil e mutável , e nos faz perceber de nuances diferentes e com um observar crítico coisas das quais achamos no mínimo antiéticas, mas que na época era apenas o mudus operandi daquela população, ainda hoje em dia existem por exemplo, sites de criação de notícias falsas, coisa da qual gera muita receita de lucro através de cliques e cliques para os administradores dessas plataformas,o ser humano se sente mais atraído por notícias e coisas das quais os tirem do cotidiano, os arranque da monotonia, mesmo que isso seja falso. Querem algo que lhe deem uma mescla de sensações prodigiosa, esperta e antenada frente aos pobres “desinformados” que ainda acreditam, por exemplo, que vivem num planeta oval.  Inúmeras teorias da conspiração inundam imaginário coletivo, vai desde “Elvis não morreu” até terraplanistas, sem contar os poderosos Iluminatis que dizem ser donos dos Estados Unidos e até do bar do seu Zezinho na esquina.

E então, voltando ao tema principal dessa postagem, conhecendo a tendência humana para invenções de patuscadas, será mesmo que na China antiga, sem provas concretas e verificáveis, se baseando apenas no que um autor que não quis se identificar escreveu em um livro de mais de meio século atrás, é possível dizer que sua proposta do Reversi chinês ser o predecessor do Reversi londrino e, consequentemente do nosso Othello atual é verdadeira?

Acredito firmemente que se você, leitor desse blog, for uma pessoa com um nível de ceticismo balanceado, saberá da resposta na ponta da língua, que será a mesma que a minha, um sucinto não. Mas, caso você leitor desse blog, por algum motivo conjecturou possibilidades das quais eu não me atentei e, acredita sim numa origem chinesa para esse jogo, sinta-se à vontade para comentar logo abaixo  nos comentários e, (sem ironia alguma) informar as fontes para que eu possa colocar um adendo com tais fontes, além dos agradecimentos.

Mas, por hora a minha opinião é a de que Fan Mian, o famigerado tal Reversi chinês, é uma mentira, uma criação equivocada de um escritor anônimo durante a década de 1950 e, decair nesse conto, é forçar a barra e jogar toda a incrível e bem documentada história que fez do nosso jogo, tudo aquilo que ele é hoje.

Meu muito obrigado, e até mais.


Algumas fontes e complementos de leitura:


Di.fc.ul. (um dos sites que criticam a história chinesa do Reversi)

Setup Group, INC. (um dos propagadores da história do Reversi Chinês)

http://www.setupgroup.com/xo/othello.php 


China Link Trading (os jogos mais populares da China)

http://www.chinalinktrading.com/blog/os-jogos-mais-populares-na-china/


List Verse (os 10  jogos mais populares na China)

http://listverse.com/2013/01/20/10-most-important-board-games-in-history/

Yahoo (um pouco sobre Harbin, o autor)

https://answers.yahoo.com/question/index?qid=20071220154331AASKxNC


Youtube, Documentário Sobre Jogos da Antiguidade – GO e Xadrez Chinês

https://www.youtube.com/watch?v=YMVaUN0YAXc

Wikipédia - Reversi (História Oficial)


Wikipédia – Latrúnculo

https://pt.wikipedia.org/wiki/Latr%C3%BAnculo

Ludopedia - Patolli

https://www.ludopedia.com.br/jogo/patolli 

Amazon (livro do Harbin: Game of Many Nations)


https://www.amazon.com/Games-Many-Nations-Harbin/dp/B0000CJ13V 


Agradecimentos


Alfredo Jara

Link para o seu blog: http://othellobrasil.weebly.com/